Um contexto alternativo: a cidade do Porto, o universo das bandas rock, fanzines, performances...
Mauro Cerqueira é um eterno adolescente
Um planeta: Planeta Mauro Cerqueira. A ironia do ego. A criação de um mundo, dos seus objectos, personagens e elementos. Desenhos, muitos desenhos. Um foguetão: 3, 2, 1... Uma constelação. Estrelas e satélites.
Referências ou coordenadas. Várias paragens. O abismo, a vertigem e o perigo dos buracos negros. Uma viagem sem fim. Explorar o percurso e universo criativo do artista Mauro Cerqueira (Guimarães, 1982) implicanos numa viagem quase labiríntica pelos meandros da virtualidade. Uma actividade dispersa por vários domínios que, no geral, configuram uma vontade e um trabalho que, depois de organizados em blogues e perfis MySpace, remetem-nos para os pressupostos inerentes à clássica tipologia do arquivo: selecção, catalogação e organização. Em vez dos pesados móveis de ferro, cheios de gavetas, Mauro Cerqueira cria uma rede de espaços virtuais, aberta a novas ligações – criadas por ele ou por outros artistas – alimentada regularmente com novas imagens, textos e vídeos, obras e documentos, que nos revelam, aos poucos, o processo, as influências ou referências, as ambições, e, sobretudo, definem aquilo que pode ser um artista, interrogando, ao mesmo tempo, essa condição.
Música, rock, desenho, fanzines ou livros de artista, performance, escultura e pintura, atravessam a prática artística e muitos dos projectos realizados por Mauro Cerqueira. As colaborações encetadas com outros artistas e performers – realizadas, na sua maioria, em espaços alternativos, muito característicos do Porto –, enquadram aquilo que vemos e lemos sobre o artista. A iniciativa e a acção propriamente dita são palavras de ordem. As oportunidades criam-se.
Em 2006, participa na exposição “Wacky Races”, com André Sousa, no âmbito da qual criam o fanzine Promoção. “Um fanzine deveras interessante pela qualidade plástica dos trabalhos seleccionados, expostos no local. Desenhos e pinturas feitas sobre papel, tão trash como delicados ao mesmo tempo, feitos de linhas toscas, frágeis, mas plenos de poesia e de uma narrativa não linear. A atitude dos dois artistas é semelhante, mas no caso de Mauro parece ser ainda mais extrema, quanto mais não seja pela diversidade de recursos utilizados, sem perder coerência nem força plástica nas abordagens diferentes por que passa.” (Marco Mendes, “Os Fanzines no Porto, Hoje”, in Salão Olímpico 2003-2006) Numa das páginas deste fanzine, Mauro Cerqueira desenha uma figura engravatada, com uma seringa no braço e escreve “We have an opinion”. Uma tomada de posição? Uma provocação, certamente. Alma Picada é o título de outro fanzine. Arrepiante.
Contexto | Alternativo: uma palavra sem significado? Conceito institucionalizado? A dinâmica criativa da cidade do Porto – na qual se insere, por enquanto, o trabalho de Mauro Cerqueira – tem sido amplamente reconhecida por curadores e críticos. A edição de um livro, pela Fundação de Serralves, sobre o projecto Salão Olímpico (um desses espaços alternativos), é a confirmação do valor e da importância deste tipo de iniciativas na formulação de propostas e discursos artísticos que, por sua vez, estão em consonância com as necessidades inerentes a estas realidades. “Têm sido por isso determinantes as iniciativas de grupos de artistas que se associam e auto-organizam, apresentando trabalho com assinalável regularidade em espaços precários e não convencionais, dentro de um modelo de acção que encontra inúmeras correspondências num contexto internacional, como acontece nomeadamente no caso dos ‘artist-run spaces’ londrinos”, refere João Fernandes no texto de apresentação de Salão Olímpico 2003-2006. Assim, “salões de bilhar, prédios abandonados, lojas fechadas, sótãos de casas particulares, são tudo exemplos de espaços que se têm transformado em salas de exposição e em ateliers.” (Ricardo Nicolau, “Montes da Verdade“, in Salão Olímpico 2003-2006). Um contexto pretensamente “singular”, como define Ricardo Nicolau que destaca, ainda, “a grande presença da performance e do desenho e a importância do seu papel no corpo de trabalho de uma grande quantidade de artistas – independentemente de os utilizarem regularmente, apenas, ou, pelo contrário, de forma quase exclusiva”.
Concretizando, como refere Miguel von Hafe Pérez no livro Propostas da Arte Portuguesa Posição 2007: “Aqui, sucedem-se espaços de carácter mais ou menos efémero, alternativos e independentes: Caldeira 213, Maus Hábitos, W. C. Container, In.Transit, Artemosferas, PêSSEGOprá- SEMANA, Salão Olímpico, Mad Woman in The Attic, Projecto Apêndice e a Sala são alguns pontos de uma cartografia instável, embora decisiva para a afirmação de uma geração”. Alguns fecharam. Outros novos surgiram. A efemeridade não permite a institucionalização abusiva.
A importância deste contexto é decisiva para um artista como Mauro Cerqueira, que afirma à L+arte reconhecer nesta dinâmica um papel central para muito daquilo que tem feito e continua a fazer, intervindo e participando na criação e programação de novos espaços. O mais recente, de sua iniciativa, chama-se Uma Certa Falta de Coerência, em colaboração com André Sousa, situado numa rua no centro do Porto. Um nome que é uma citação e tradução do título do livro de Jimmie Durham, A Certain Lack of coherence: Writings on Art and Cultural Politics. Um local que propõe uma “discussão da Arte e do Real no espaço físico e real (...) diferentes olhares, diversidade de programação e a construção de uma rede de relações para além dos limites da amizade e da geografia”. Para o blogue que apresenta este novo projecto são transferidos dois textos de Durham – “Artists Must Begin Helping Themselves” e “Interview with a 10,000 Year Old Artist” – que, de alguma forma, questionam “o papel e o modelo de artista” e a própria ideia de comunidade. Os dois artistas viajaram pelo Reino Unido para verem espaços semelhantes, formas de sobrevivência, originalidades e desafios. A relação estabelecida com o contexto é fundamental para Mauro Cerqueira. O ateliê, num prédio do Porto, desloca-se para os diferentes espaços onde mostra o seu trabalho. O resultado final é fruto de uma vivência específica: “Gosto de espaços novos, gosto do desafio colocado, interessa-me o diálogo entre arquitectura e trabalhos, desloco-me e faço trabalhos no próprio lugar de exposição”. Começou também a interessar-se pela escultura, pelos objectos, articulados com performances. Copos de vidro, madeiras, berlindes... A fragilidade e o equilíbrio dos materiais. O público é confrontado e integrado na tensão criada.
1982 | Eterno adolescente? “Imagens de pessoas, de adolescentes como eu, que levantavam os olhos do asfalto e ficavam encadeados pelo sol” é uma frase do livro Menos que zero, de Bret Easton Ellis, uma das referências literárias de Mauro Cerqueira, a partir da qual realiza uma série de obras e uma exposição na Galeria Gomes Alves, em Guimarães. Outras influências atropelam-se: Larry Clark, David Shrigley, Mike Kelley, Richard Prince, Raymond Pettibon, Virgin Prunes, Sonic Youth, Pedro Costa, entre outros. Artistas que trabalham universos perpendiculares ao seu, cujos nomes não recusa enunciar. E, ainda, o fascínio e a fé, quase cega, nas bandas rock. Sublinha-nos a importância do que vê, lê e ouve. Dispersa-se em vários interesses.
Seleccionado por Ricardo Nicolau para o projecto Pilot:3 – evento e publicação, paralelo à Bienal de Veneza 2007 e Frieze Art Fair 2007, Londres, que mostra o trabalho de novos artistas – a sua obra é caracterizada pela utilização de uma iconografia peculiar, cenas violentas de humor negro repletas de alusões escatológicas e sexuais no âmbito das convenções do cartoon e do fanzine, criando, desta forma, um universo que se move entre a “melancolia e o êxtase, desejo e desespero, sangue e fluidos humanos”. A tensão é constante e, ao longo dos vários projectos, a presença da adolescência, do sexo, dos desenhos espontâneos, de um certo delírio ficcionado, dos desgostos de amor, das desilusões e ilusões, e da estetização do sofrimento, da indiferença perante o dia de amanhã – “Se Morrer, Morri” é o nome da exposição na Galeria Reflexus, Porto – é uma constante. O mote “live fast and die young” adequa-se na perfeição. O corpo é suporte e objecto, dor e prazer. Uma experiência e um registo particular da memória, do tempo. Resgatar o passado para a incoerência do presente. Uma ideia de liberdade, despreocupação juvenil, o caos e o prazer da catarse. Repetição e insistência.
Uma religião | Coincidência: Mauro Cerqueira nasceu em 1982, o mesmo ano em que Dan Graham inicia o projecto Rock My Religion, 1982-84. Publicado inicialmente como um ensaio, serve de base a um filme, no qual o artista norte-americano teoriza sobre o surgimento de uma nova classe social, surgida no pós-guerra – a adolescência – estabelecendo uma íntima relação com o universo criativo do rock, a religião dos tempos contemporâneos; uma classe social originalmente criada para consumir é consumida pelo lazer, tédio e vontade de revolta. Um filão criativo.
Mauro Cerqueira é um dos seus exemplos. “A religião dos adolescentes dos anos 50 e a contracultura dos anos 60 são adoptadas pelos artistas Pop que propõem um fim da religião da ‘arte pela arte’. Patti dá um passo em frente: o rock como uma forma de arte que progressivamente irá englobar a poesia, a pintura e a escultura. Se a arte é apenas um negócio, como sugere Warhol, então a música torna-se na emoção comunal, transcendental, que a arte passou a negar”, postula Dan Graham, no texto Rock Religion. Cruzamentos que encontramos, igualmente, em vários projectos de Mauro Cerqueira. As bandas de garagem que criou quando era mais jovem deram lugar a outras, mais profissionais, como Flanela de Tal (com a artista Isabel Carvalho). Com elas explora a visualidade e a performatividade de forma mais intensa, o confronto com o público. “Being young is a state of grace. Being young is also a matter of being present, not mired in nostalgia” (John Miller, Now even the Pigs’re groovin). Abismo e vertigem.
Pedro Faro, in revista "L+arte", Junho de 2008