O artista enquanto jovem

A força da adolescência como criadora de situações artísticas. Numa exposição de Mauro Cerqueira,

“Sua boca, aberta para gritar, estava cheia de terra”, de Mauro Cerqueira


Artista com um percurso realizado sobretudo no Porto, Mauro Cerqueira (Guimarães, 1982) desceu este ano, finalmente, a Lisboa. Só desde Março já expôs, entre individuais e colectivas, no projecto Round The Corner, de Margarida Mendes, no Espaço Avenida 211 e no Museu da Electricidade (no âmbito dos Prémios EDP Novos Artistas, onde foi Menção Honrosa). E, agora, eis “Sua boca, aberta para gritar, estava cheia de terra”, no Kunsthale Lissabon, espaço (e projecto) gerido por João Mourão e Luís Silva.

É caso para dizer, parafraseando o nome do blog onde o artista desenvolve, há vários anos, uma furiosa e desopilante produção em desenho, que o Planeta Mauro é um “astro” cada vez menos associado ao contexto de uma cidade. Embora isso não signifique que devamos esquecer a sua origem. Muito pelo contrário.

Mauro Cerqueira surgiu, de facto, com e dos espaços alternativos ou não-institucionais do Porto, como o Salão Olímpico; foi nesse milieu que encontrou a realidade que lhe permitiria desenvolver algumas das práticas, interesses e modos de fazer que identificam a sua obra. A saber: o gosto pelo trabalho em espaços precários, “novos”, menos tradicionais; o cruzamento descontraído da arte contemporânea com os universos eruditos/marginais da cultural popular (porque eles também existem); o interesse pela performance como criadora de objectos e espaços; ou o uso da Internet como suporte efectivo de uma obra – é legítimo dizer que Mauro Cerqueira é um(dos) artista(s) do seu tempo.

“Sua boca, aberta para gritar, estava cheia de terra” não vem assinalar uma ruptura com esta história. Está lá o resultado de uma performance (realizada no dia 10), o gosto por outro lugar que não o white cube, e principalmente o trabalho, quase displicente, mas sempre intenso, com materiais, conceitos e gestos simples. A instalação homónima consiste num singular plataforma de madeira pintada de branco, construída pelo próprio e sobre a qual este verteu tinta branca. Uma acção sobre o espaço e presença do espectador: o chão torna-se um prolongamento cromático da estrutura e ganha uma dimensão pictórica que o espectador pode (ou não) trazer para fora da exposição, “pintando” o exterior com as suas pegadas. Sem o controlo do artista, como os mergulhos dos skaters no vídeo "O salto - Serin and Rich" (2009).

O movimento físico, indiferente, fazedor de situações, pontua, com frequência, as intervenções de Mauro Cerqueira. Em particular, o do adolescente (o skater, os rapazes que mergulham, o artista, o desenhador de traços crus). Nem por acaso, este trabalho foi inspirado numa cena de “Scum” (1977), filme de Alan Clark, (nome do cinema realista britânico), que retrata o quotidiano de um reformatório inglês dos anos 70: aquela em que dois miúdos são castigados depois de apanhados a escrever numa parede a frase “I´m Happy”.

O vídeo “E o céu formara, na imunda lona de má qualidade, um retalho de um azulo glorioso” remete para “imagens” semelhantes. O artista baloiça num lençol branco, sobe, desce, escorrega, pendura-se como um pirata, um evadido ou Kurt Cobain no candelabro, no vídeo de “Come As You Are”. O título é retirado do conto “Youth”, de Joseph Conrad e remete para o rasgo feito na rampa de “Perder as Graças” (apresentado nos Prémios EDP). Afinal o que se vê depois desse rasgo, o que aparece depois daqueles movimentos? Porventura, apenas o gesto insistente, despreocupado do artista diante do futuro. À procura do azul do céu e do mar.

MARMELEIRA, Jóse – “O artista enquanto jovem”. Jornal Público/ Ípsilon, 18.09.09