Saltos no vazio

Nos anos 1970, um longo período de seca obrigou ao esvaziamento das piscinas de uma vasta área de Los Angeles. O facto foi aproveitado pelos Z-Boys, o mais importante grupo de skaters da história, para inventar novas transições – foi na “Dogbowl”, em Santa Monica, que o mítico Tony Alva criou a “frontside air”, uma das principais manobras da modalidade vertical. O uso deste género de arquitecturas para a prática do skate voltou a surgir recentemente devido à crise no mercado imobiliário norte-americano – não é raro ver-se os praticantes deste desporto a limparem o lodo entretanto acumulado no fundo de um tanque de água para ali aperfeiçoarem o seu estilo.

Os z-Boys são igualmente apontados como uma das origens da subcultura punk/skater, sendo hoje famosas as pranchas criadas por Stacy Peralta e o construtor George Powell, as Powell-Peralta. Um destes skates é usado num dos vídeos que Mauro Cerqueira (Guimarães, 1982) apresenta no Espaço Campanhã – o mais recente espaço independente do Porto, gerido por Miguel Pinho e José Maia.

O filme, caseiro, sem edição e com cerca de trinta minutos, é composto por manobras realizadas por dois skaters de Bristol, Serin e Rich, que tomaram como ponto de partida uma série de desenhos publicados pelo autor no fanzine “Sem Rumo”. A interpretação vai dando lugar a um progressivo afastamento da “pauta”, dando lugar à invenção de novos desafios – o registo, feito no ateliê do artista, documenta assim um processo criativo, feito de um permanente experimentar.

Na parede oposta à apresentação deste trabalho, é projectado um outro vídeo, protagonizado pelos mesmos skaters, contudo, neste caso, Serin e Rich misturam-se com a população local no acto de saltar quer das margens da Ribeira, quer do tabuleiro inferior da ponte D. Luís, para o rio Douro.

A performance tem agora lugar no espaço público, num crescendo que leva o estrangeiro a ser o protagonista do mergulho mais corajoso, porque feito de um ponto mais elevado. A grelha da arquitectura do ferro é assim o cenário de uma coreografia informal, popular, mas nem por isso menos eficiente do ponto de vista estético – aqueles voos encontram o seu equivalente conceptual em “Le saut dans le vide” (1960), protagonizado por Yves Klein.

Projectados sobre duas estruturas em madeira – uma peça intitulada “As paredes de um grande tanque”, que faz de cenário e de elemento estruturante da exposição, porque a confina a um território nómada, no qual acontece a deriva de Serin e Rich –, os vídeos são acompanhados por uma legenda inscrita na parede, um grafitti onde se lê a frase: “Uma das coisas mais bonitas que eu já vi foi skaters a usar piscinas vazias.”


Mauro Cerqueira fabrica obras de arte com ideias simples e de uma eficácia desarmante. Talvez seja possível um dia ver o seu trabalho ao lado de outros produzidos nomes e criações que participam da mesma energia: Bruno Peinado, Shaun Gladwell, Raphaël Zarka, a arquitectura “Free Basin” (2000-2002), instalada pelos Simparch na Documenta XI, em Kassel, ou ainda as fotografias de Craig R. Stecyk III.



FARIA, Óscar. "Saltos no Vazio" Público/Ípsilon, 29.05.09