Julgo ser a primeira tradução para português de «Menos Que Zero», o primeiro e afamado romance de Bret Easton Ellis. É um livro editado pela Teorema em Janeiro de 1987 que marcou os meus anos de adolescência. Primeiro pela ilustração da capa feita por Jorge Colombo – um rapaz na extremidade de uma prancha completamente vestido, num ambiente tipicamente Los Angeles com piscina, palmeiras e um avião que passava - e depois porque o decidi ler. Aquele desenho de Colombo simboliza de alguma maneira, assim em jeito de flashback muito rápido, a minha imagem de miúda do que era olhar para quem era culturalmente activo em Portugal no final dos anos 80 e princípio dos anos 90 - as crónicas de Miguel Esteves Cardoso, o Independente, aquele sítio mítico no qual só consegui que me deixassem entrar anos mais tarde - o Frágil, as fotografias de Inês Gonçalves, a revista Kapa e os desenhos de Jorge Colombo. Isto assim, tudo resumido às três pancadas, é o que a capa do «Menos Que Zero» me faz lembrar.
Mauro Cerqueira tinha 5 anos em 1987. Um dos seus heróis, que regem o Planeta Mauro, um projecto artístico em forma de blog e não só, é Bret Easton Ellis. O seu nome está lá na constelação Planeta Mauro (com logo tipo Planet Hollywood) numa pintura que chapa e assume de caras os nomes que religiosamente segue, como fã, como amigo, como for. Na pintura do Planeta Mauro estão representadas, por nome, as “suas” estrelas – artistas como David Shrigley, Mike Kelley, Richard Prince, Goya, Raymond Pettibon, por exemplo, convivem com Nirvana, Virgin Prunes, The Strokes, ou com Pedro Costa e Isabel Carvalho, sua antiga professora e hoje colaboradora num outro projecto, desta feita, uma banda – os Flanela de Tal.
Depois de uns anos valentes a tentar acabar o 12º ano, Mauro caiu de pára-quedas na Escola Superior Artística do Porto, extensão de Guimarães. Um pólo com poucos alunos e menos dinheiro, mas professores aplicados e jovens, e ateliers grandes. Foi aí que percebeu que podia fazer livremente o que andava a fazer desde pequeno – desenhar. Tirou o bacharelato em Pintura, mas licenciou-se em Desenho. E isto não foi assim há muito tempo. Desde 2005 que desenvolve os seus projectos – são uma parafernália deles, porque quer experimentar tudo – fanzines, blogs, BD, fotografias, música (tem sites para todos) mas também exposições – como as que fez em diversos espaços independentes do Porto como o Apêndice (uma loja no Centro Comercial de Cedofeita), ou o Wasser-Basin, uma sala no Edifício Artes em Partes – onde expôs a série de desenhos «Fuckers» ou na Pilot (escolhido por Ricardo Nicolau) - uma exposição de novos valores que estrategicamente inaugura ao mesmo tempo que feiras de arte como a Frieze, em Londres ou durante grandes exposições como a Bienal de Veneza.
No ano passado, em 2007, 20 anos após aquela edição portuguesa do livro de Ellis, Mauro chamou à sua exposição individual na Galeria Gomes Alves, em Guimarães, «Menos Que Zero». Uma das instalações, duas fotografias e um vídeo em cima de um estrado de madeira marcavam uma espécie de homenagem – as fotografias são das suas tatuagens que fez enquanto puto em Guimarães, o vídeo é uma gravação manhosa de um ensaio da sua primeira banda, os Morgue. São 40 minutos de uma banda que ensaia, insiste e acredita com uma energia que só temos quando ainda é possível chamarem-nos “juventude perdida”, “putos rebeldes” e coisas piores como “não fazem nada, só fazem merda”, ou coisas do género. Outra das peças é «Less Is More/ Love Is Blind», uma rampa que o artista, numa performance, tentou passar em jeito de puto-herói para o outro lado – tentou continuar a viagem de skate pela parede pintada com horizonte. Acto à partida tão falhado que vale a pena tentar, com certeza. Mesmo à força. E mesmo sabendo que se vai bater com a cara no chão.
Os próximos projectos de Mauro, excluindo os blogs em constante “progress”, envolvem um espaço para exposições que está a dinamizar juntamente com André Sousa (na Rua dos Caldeireiros, no Porto) - Uma Certa Falta de Coerência/A Certain Lack of Coherence (título de um livro do artista Jimmy Durham) no qual vai comissariar as três primeiras exposições; a banda Flanela de Tal, projecto novo que tem juntamente com Isabel Carvalho e Luís Eustáquio; e finalmente… «Se Morrer, Morri», uma exposição individual na sua galeria do Porto, a Reflexus, que inaugura no dia 1 de Março (até 5 de Abril). O título e a imagem do convite é o mesmo de um álbum de uma das suas bandas de eleição, «If I Die, I Die» dos Virgin Prunes. Esta é uma pista para o futuro, já falei de ontem e de hoje. Agora deixo a música que ouve.
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Susana Pomba
in: revista do "LUX"