"Os Fanzines no Porto, Hoje" (excerto)
"Pêssego Prá Semana
O espaço Pêssego Prá Semana iniciou a sua actividade em 2003 e continua com uma programação regular, todas as sextas e sábados. Abre de dia, mas é à noite que a coisa anima.
As diferentes salas deste prédio degradado, onde por vezes caem pedaços do tecto ou se partem os degraus das escadas de madeira carcomida, chegam a ficar apinhadas de gente que vem para ver o que lá se passa e acaba sempre por beber uma cerveja no último piso, num pequeno bar improvisado. Nas noites mais animadas dança-se, conversa-se ruidosamente, o ambiente é familiar e de festa.
Quem gere o funcionamento da casa, na Rua Antero de Quental n.º 133, são três artistas plásticos: Miguel Carneiro (já há algum tempo afastado da programação do espaço, mais sobre ele adiante), cujo avô é proprietário do prédio; André Sousa, que em 2005 abriu o espaço Mad Woman in The Attic; Mafalda Santos, membro fundador do CLAP, Clube Artístico do Porto, juntamente com Daniel Schurer, responsável por um sem número de actividades e eventos. “Os Pêssegos” fazem a sua própria divulgação reciclando cartazes e flyers excedentários de eventos ocorridos noutros sítios, serigrafando-os a uma cor por cima e fazendo dessa a sua imagem de marca.
Das muitas exposições aí realizadas, destacamos Wacky Races, de Mauro Cerqueira e André Sousa, em Junho de 2006, onde foi lançado o fanzine Promoção, com uma tiragem de 40 exemplares e formato A4, fotocopiado e encadernado com argolas de plástico. É um fanzine deveras interessante pela qualidade plástica dos trabalhos seleccionados, expostos no local.
Desenhos e pinturas feitas sobre papel, tão “trash”, como delicados ao mesmo tempo, feitos de linhas toscas, frágeis, mas plenos de poesia e de uma narratividade não linear. A atitude dos dois artistas é semelhante, mas no caso de Mauro parece ser ainda mais extrema, quanto mais não seja pela diversidade de recursos utilizados, sem perder coerência nem força plástica nas abordagens diferentes por que passa.
Já o trabalho de André Sousa é capaz de oferecer soluções de composição de página e de registo gráfico pessoais e inovadoras. Este artista assume-se como uma espécie de camaleão, apresentando trabalhos de género e temática muito diversa, várias vezes publicado em fanzines."
Marco Mendes, in: