"MAURO CERQUEIRA
Bem-vindos ao planeta dele
É um dos quatro artistas portugueses presentes na Bienal de Veneza e ainda não acabou o curso (enfim, está quase). Mauro Cerqueira tem um planeta e está em descolagem.
Ser jovem artista em 2007, ou artista “emergente”, como se costuma dizer, é (para lá de um “timing” perfeito: o mercado da arte procura-os cada vez mais novos) estar “online”.
É fazer exposições mas também ter blogues — e não necessariamente por esta ordem de prioridades.
Mauro Cerqueira tem blogues que não acabam (um leva ao outro, que leva a outro...), mas o mais consistente é Planeta Mauro, onde com regularidade mais ou menos bimensal tem colocado os seus desenhos, para quem quiser ver.
“A grande vantagem [do blogue] é que está sempre ali, está sempre a acontecer, estou sempre a pôr 'posts’ novos, vêm lá parar pessoas de todo o mundo, que podem ver aquilo. É um universo que está ali a crescer, a crescer... Ao passo que uma exposição é um momento que acaba”, diz o finalista da Escola Superior Artística do Porto (pólo Guimarães), sentado no soalho de um prédio de habitação um pouco decadente que se tornou num dos espaços obrigatórios de uma cena artística alternativa portuense, o PêssegopráSemana (a alternativa começa no nome).
Ele não fala assim por défice de exposições, desdenhando o que nunca teve. Nada disso: Mauro Cerqueira tem uma lista de exposições que impressiona em alguém tão novo — mesmo que não correspondam propriamente ao “establishment” artístico, são sinal de vitalidade e de interesse pelo seu trabalho. ~
Talvez seja o momento de dizer que há quatro artistas portugueses presentes na Bienal de Veneza e um deles é Mauro Cerqueira (os outros são Ângela Ferreira, Jorge Molder e João Marçal). Mauro integra o Pilot 3, que pretende ser uma rampa de lançamento para criadores que ainda estão fora dos circuitos comerciais da arte. Ao todo são 85, cada um deles nomeado por um comissário ou agente artístico: Mauro Cerqueira foi a escolha de Ricardo Nicolau, assessor do director do Museu de Serralves.
Em Outubro, o Pilot (e Mauro) estará em Londres, coincidindo com a semana da feira de arte Frieze — a estratégia do Pilot para dar nas vistas é a de surgir sempre em paralelo às grandes mostras internacionais de arte.
Mauro faz fanzines, tem uma banda para brincar às bandas, constrói naves espaciais em cartão e papel dourado, materiais de trazer por casa, com saudades das aulas de trabalhos manuais (ainda haverá, nos novos currículos escolares?), e tudo isto faz parte do seu programa artístico. Ele actua em várias frentes — desenho, escultura, música, performance, pintura — mas, vendo bem, todas elas apontam para uma espontaneidade (também se poderia dizer: urgência), crueza, gosto pelo “kitsch” e um espírito “do-it-yourself”.
Até Mauro chegar aqui, o percurso não era nada óbvio. Nascido e criado numa zona marginal de Guimarães — uma rua no centro da cidade que, “quase porta-sim, porta-sim, tinha uma casa de meninas” — nunca se tinha imaginado em artes plásticas (estava mais inclinado para a literatura, para a área de humanidades), pelo menos não antes de repetir o 12º ano. Duas vezes. “Estive três anos a acabar o 12º ano”, ri-se. “Não sabia o que queria fazer. E ainda bem que aconteceu isso.”
Agora ele olha para trás e vê que os sinais estavam lá. Desde pequeno, sempre desenhou — das paredes e guarda-fatos do quarto ao grafismo das bandas de adolescência que foi tendo. Mas os desenhos não eram certinhos, bonitinhos, convencionais. Resumindo: ele não tinha um bando de gente a dizer-lhe: és muito talentoso. “Era exactamente o contrário. Não tinha consciência de que aquilo era algo para levar a sério. É como na música: o tipo que tem muita técnica é que é bom...”
Ele sabe disto por experiência própria. Teve bandas de garagem umas atrás das outras, e algumas delas levavam a música muito, muito a sério — ele também (o que explica a sua passagem por um curso de canto numa academia de música e as lições de piano), até perceber que não era aquilo que queria. “Podíamos estar meses e meses e meses a trabalhar numa música. O que é de doidos! Os meus desenhos demoram um minuto, dois minutos... O meu registo é rápido, não faz sentido na música estar a fazer uma coisa oposta.”
Entrou na ESAP “mesmo às escuras” mas teve professores que lhe revelaram artistas que se viriam a tornar referências. Isabel Carvalho foi um desses professores: mostrou-lhe o trabalho do americano Raymond Pettibon, autor da capa de um célebre álbum dos Sonic Youth, Goo. Mauro e Isabel Carvalho formam hoje os Flanela de Tal, a tal banda que brinca às bandas (“somos uma banda mas somos mais do que isso”) e que, a brincar a brincar, está no MySpace, que, não por acaso, evoca os Sonic Youth. Mauro admite: “Sim, sim. Os Sonic Youth são a banda que eu gostava de ser...”
Com regularidade mais ou menos bimensal, tem vindo a dar corpo a Planeta Mauro, o tal blogue que é um inventário de desenhos de pormenor, toscos, lo-fi, a lápis. Por regra, o ponto de partida são objectos banais, para resultar num mostruário (também se poderia dizer: monstruário) surreal. São guitarras, móveis de cozinha, cadeiras, superheróis, dentes (e superdentes), fantasmas, jantes, naves inimigas, cintos, chapéus-de-chuva, cortes de cabelo, esculturas para rotundaas, gelados, etc. “É a ideia megalómana de desenhar tudo e criares um planeta teu”, explica. Sejam bem-vindos.
B.I.
Idade: 24 anos
Naturalidade: Guimarães
Ocupação: Artista visual, finalista da Escola Superior Artística do Porto
Heróis: David Shrigley, Mike Kelley, Richard Prince, Daniel Johnston, Raymond Pettibon, Bret Easton Ellis, Sonic Youth, Pedro Costa
Online: www.planetamauro.blogspot.com, www.myspace.com/flaneladetalExposições em: Laboratório das Artes, Galeria Gomes Alves (ambas em Guimarães), PêssegopráSemana, Apêndice, Wasser-Bassin (Porto), entre outros"